Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegação

Crítica: O Dono do Jogo

Um ponto positivo do filme está na trilha de James Newton Howard, experientíssimo compositor especialista em thrillers e tramas políticas, como "A Vila (2004)", "O Abutre (2014)
Crítica: O Dono do Jogo



Falar de um tema recorrente no cinema como a Guerra Fria é complicado, pois desde a época do próprio conflito o tema é abordado amplamente, através de comédias, sátiras, ficção científica, dramas e etc. Mas se alguém poderia abordar esse tema de forma que ainda rendesse algo de novo e interessante à Sétima Arte era o versátil diretor Edward Zwick, responsável por grandes sucessos de bilheteria e acostumado a trabalhar com nomes consagrados do cinema em tramas que geralmente têm um peso político muito forte, como "Tempos de Glória (1989)", "Diamante de Sangue (2006)" e até "O Último Samurai (2003)". Trabalhando com a estrela Tobey Maguire no papel principal, o diretor se arrisca neste tema com o drama biográfico "O Dono do Jogo".

Com roteiro do indicado ao Oscar Steven Knight, de "Coisas Belas e Sujas (2002)" e "Senhores do Crime (2007)", o filme conta história do prodígio norte-americano do xadrez Bobby Fischer (Tobey Maguire), de como em meio a paranoia da Guerra Fria ele se envolveu na disputa entre os dois países, precisando nesse meio tempo desafiar os jogadores soviéticos para provar que é o melhor do mundo.

Como para bom entendedor meia palavra basta, o fato de derrotar o melhor jogador soviético Boris Spassky (Liev Schreiber) simbolicamente era muito mais do que parecia, como se significasse uma vitória norte-americana sobre o comunismo.

Apesar de não ser necessariamente uma produção completamente luxuosa, o elenco reúne nomes de peso, como a já mencionada dupla Maguire/Schreiber, além dos eficientes coadjuvantes Peter Sarsgaard e Michael Stuhlbarg, todos indicados ao Globo de Ouro. Algo interessante relacionando o filme com seu protagonista é que Bobby era filho de pai alemão e de mãe judia-suíça naturalizada norte-americana.

Falecido em 2008, Bobby havia nascido nos EUA, mas seu próprio "sangue" não era norte-americano, o que demonstra como o governo foi oportuno naquele momento em usar suas habilidades a seu favor. Um gênio prematuro que foi campeão nacional pela primeira vez aos catorze anos e como toda mente brilhante, temperamental e problemático.

A princípio, a direção de Zwick se preocupa em mostrar o amadurecimento de Bobby, sua relação complicada com a família e principalmente estabelecendo sua personalidade instável e ambiciosa. Até a metade do filme - ou para ser mais preciso, até o encontro com Spassky na praia - Tobey Maguire traz um vigor na sua interpretação realmente impactante, demonstrando a paixão de Bobby pelo xadrez e principalmente seu implacável desejo de se tornar o melhor.

Mas conforme o filme tenta aliar o drama do protagonista com o clima político tenso que servia apenas como pano de fundo até então, a direção e o rumo do filme começam a se perder um pouco entre o sonho de Bobby e a conspiração do governo, representado pelo personagem Paul Marshall (Stuhlbarg), que tenta usá-lo a seu favor.

Outra coisa que incomoda é que o filme "força" mostrar que o xadrez era o futebol daquela época, o esporte mais conhecido, a febre nacional. Mas sabemos que na era moderna o xadrez nunca foi tão importante assim, a não ser para aquele seleto grupo de praticantes ou aficionados.



Situado em uma época que foi o auge da popularização de esportes como o hockey, basquete e o futebol americano, infinitamente mais populares que o xadrez, fica difícil acreditar em toda a comoção pelas façanhas de Bobby, parando o país. Com exceção, é claro, da final do mundial contra o melhor jogador do mundo, o soviético Boris Spassky, o momento mais aguardado do filme.

Os personagens de Sarsgaard e Stuhlbarg estão bem encaixados dentro que o roteiro lhes permite, mas apesar da boa entrega dos dois atores poderiam ser melhor trabalhados, pois funcionam apenas como "escada" para o personagem de Bobby, por passarem o filme inteiro falando e atuando em função do protagonista. Como Boris, Liev Schreiber interpreta um papel muito semelhante ao que já fez em "Os Brutamontes (2011)", onde não necessariamente é um vilão para a história, mas na verdade uma força antagonista que está no caminho entre Bobby e seu sonho de ser o melhor. Convém ressaltar que Zwick não conseguir criar uma oposição forte o suficiente entre Liev e Tobey, como o diretor Michael Dawson conseguiu em Os Brutamontes. Por não ser um esporte tão passional, penso que a rivalidade entre os dois oponentes precisaria estar mais acesa para a ideia funcionar melhor.

Um ponto positivo do filme está na trilha de James Newton Howard, experientíssimo compositor especialista em thrillers e tramas políticas, como "A Vila (2004)", "O Abutre (2014)", "Batman, O Cavaleiro das Trevas (2008)", entre outros, tanto que já foi indicado a 8 Oscars. Newton Howard consegue ambientar a época em que o filme passa, passar tensão nos momentos certos, mas principalmente ritmar o filme animando nos momentos em que a cadência da narrativa fica muito lenta.

O filme tem boas cenas como uma entre o padre e Bobby, na qual eles jogam uma partida de xadrez, mas há um pequeno excesso de explicação na disputa entre Bobby e Boris. Muitas vezes, a cena se auto dirige e faz o espectador participar mais ativamente do filme, como as reações dos jogadores já demonstravam, tornando desnecessária a participação de um interlocutor explicando tudo.

Concluindo, "O Dono do Jogo" acaba sendo um pouco frustrante pelo potencial tanto de mão de obra como de conteúdo a ser contado. A direção de Zwick começa muito bem, apresentando Bobby e sua difícil personalidade, mas em algum momento ele perde o controle do ator e do filme. Há uma linha muito tênue entre o personagem excêntrico (como Leonardo DiCaprio em "O Lobo de Wall Street", por exemplo) e o mimado, chato e Maguire ultrapassa essa linha, acabando por conceber uma atuação over (exagerada). Não é só sua culpa, ele está esforçado e tanto a direção como o roteiro têm o mesmo peso nessa crítica à sua performance. 

Ainda que seja um filme que pode agradar por conseguir se comunicar com o público médio, já que o projeto quis traçar um paralelo entre a vida do personagem e a questão política, essa última não poderia ter sido abordada de forma tão rasa como foi. A direção frágil permitiu que a afetação do personagem carregasse o filme e sendo bem crítico, o resultado deixou bastante a desejar.


Divulgaí

Deixe sua opinião:)