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Crítica: Milagres do Paraíso

É bem provável que receba muitos elogios do seu público-alvo, mas em nível cinematográfico preocupa porque a diretora Patricia Riggen comete basicamente os mesmos erros do seu filme anterior

Baseado em um livro escrito pela própria protagonista Christy Beam, contando a história de como um milagre aconteceu na vida da sua família, a jovem diretora mexicana Patricia Riggen, de "Os 33" (2015), ficou responsável por adaptar mais uma história real de superação para os cinemas.

Contando com um elenco não necessariamente de desconhecidos, mas na falta de palavra melhor "desacreditados", a produção não gasta tanto, diminuindo os riscos de prejuízo e entra na onda recente de filmes gospel que têm ganhado espaço nos circuitos populares de cinema, como a franquia "Deus Não Está Morto" e o religioso "O Jovem Messias", por exemplo.

O casal Christy (Jennifer Garner) e Kevin Beam (Martin Henderson) levava uma vida muito feliz no Texas com suas três filhas Anna (Kylie Rogers), Abbie (Brighton Sharbino) e Adelynn (Courtney Fansler), indo à igreja semanalmente, convivendo em harmonia com a comunidade e fazendo um trabalho muito bonito que é cuidar de animais, já que Kevin é veterinário. Até que um dia a caçula Anna passa mal e é levada ao médico, onde é diagnosticada incorretamente. Conforme o tempo passa, a família descobre que a garotinha tem uma doença raríssima e praticamente incurável, e isso altera completamente a vida daquelas pessoas.

A escolha de Jennifer Garner no papel principal foi uma decisão importante para o filme, mas principalmente para a atriz, que surgiu como um grande talento na série "Alias" e acabou não vingando na carreira. Mas sua atuação em "Clube de Compras Dallas" (2013) provou que o tempo lhe fez muito bem e agora ela pode aliar seu carisma natural com boas interpretações dramáticas.

É uma pena para o filme que o restante do elenco não esteja no mesmo nível, com exceção do mexicano Eugenio Debez, que interpreta o brincalhão Dr. Nurko e funciona para o filme não como um alívio cômico - para isto o filme introduz a personagem de Queen Latifah, sem sucesso por sinal - mas como uma contraposição à atuação pesada e dramática de Garner.

Além do título ruim, que praticamente entrega a história, "Milagres do Paraíso" sofre do mesmo problema do filme anterior da diretora, "Os 33". A história é real, a emoção parece ser genuína, mas a experiência de assistir ao filme é frustrante por seguir muito a risca a fórmula de centenas de outros dramas já vistos no cinema em todos esses anos de existência: família feliz, ocorre o conflito, tudo piora muito, até que um milagre acontece (no caso da comédia romântica, a reconciliação) e tudo volta ao normal.

É claro que não esperávamos que a diretora trouxesse respostas plausíveis para este evento sobrenatural, mas o filme toca em vários pontos que poderiam gerar uma discussão relevante, mas que são abandonados pelo meio do caminho para priorizar o melodrama, como por exemplo, a negligência médica, que fornece diagnósticos sem ter cem por cento de certeza, prejudicando e até tirando muitas vidas.

Ou o enfoque na rotina e nas dificuldades que uma pessoa doente, que precisa se alimentar por sonda sofre no seu dia-a-dia. Ao invés disto, a direção prefere abordar essas questões muito superficialmente e tentar provocar uma resposta emocional no espectador através de artifícios clichês, como uma trilha sonora melancólica e principalmente jogar toda essa pressão de tocar o público por meio das atuações de Jennifer e da pequena Kylie.

O roteiro adaptado por Randy Brown é completamente engessado e formulaico, como eu disse, tirando o espectador do filme em vários momentos pela sensação de já ter visto o que está acontecendo na cena. Melhor dizendo, o roteiro faz com que o espectador perceba que o que ele está vendo é um filme, e isso tem um efeito completamente prejudicial porque ao contrário da maioria dos filmes, essa é uma história baseada em fatos reais.



E as coisas não melhoram quando o fator religião toma conta da história, o que era de se prever pelo discurso de fé plantado nas primeiras cenas. Aqui cabe uma observação: o objetivo de atingir seu "público-alvo", ou seja, pessoas que compartilhem das mesmas ideias e da religião apresentada, vai ser alcançado, por motivos óbvios de afinidade. Entretanto, em termos cinematográficos e de condução de narrativa a história não convence e a maneira como foi apresentada não funciona.

Como eu havia mencionado, há uma tentativa de inserção cômica na metade para o final do filme através da personagem Angela (Queen Latifah). O carisma da atriz é eficiente, de cara o espectador simpatiza com a personagem, muito também pela forma como ela é introduzida no filme, mostrando bondade em paradoxo com outro personagem que demonstra maldade na mesma sequência.

Mas as cenas nas quais ela participa, apesar de servirem de contraponto para o filme e para as próprias personagens esquecerem o problema por um momento, são estereotipadas e poderiam ter sido bem melhor pensadas. Já que todo o filme é previsível, talvez para se ater aos fatos da história original, essa era a oportunidade de ousar e fazer algo fora do clichê, surpreendendo o espectador, mas não é o que acontece.

Sendo assim, "Milagres do Paraíso" é um filme tecnicamente bem feito dentro do seu pequeno orçamento, mas sua previsibilidade e a maneira superficial como aborda seus temas mais relevantes é muito prejudicial à experiência do espectador com o filme. É bem provável que receba muitos elogios do seu público-alvo, ou seja, a comunidade cristã que é enorme e adere as mesmas crenças que o filme prega, mas em nível cinematográfico preocupa porque a diretora Patricia Riggen comete basicamente os mesmos erros do seu filme anterior, demonstrando que não aprendeu muito com as críticas que recebeu.

O elenco faz o que pode dentro de um roteiro engessado, com destaque para Jennifer Garner, que repito, parece que o tempo lhe fez muito bem e ela deve continuar arriscando papéis dramáticos como este porque está em um grande momento na carreira, mas sua atuação foi vítima de uma direção melodramática, que deliberadamente se aproveita da história para forçar uma emoção no espectador (há até um clipe inteiro de uma bela música country no meio do filme). Curioso que a história real é o tipo de história capaz de fazer alguém acreditar em Deus, mas da maneira formulaica e manipuladora como foi apresentada, mais parece uma lição que alguém quer pregar, tirando do espectador a oportunidade de se surpreender, participar e se envolver com o filme.
Divulgaí

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