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Reflexões de um cinéfilo: “Um conto de uma Arlequina”

Não há lados certos e errados. Uma única personagem que “tem motivos” para ser sexualizada foi criticada e os fãs foram a luta, comentaram, compartilharam e discutiram sobre o assunto.
Reflexões de um cinéfilo: “Um conto de uma Arlequina”

É uma história que não muda. Surge uma arte como a de Milo Manara da Mulher-Aranha na internet ou o comentário de que Gal Gadot “não tem corpo o suficiente para ser a Mulher-Maravilha” e logo, dois grupos são formados, “prós” e “contra” a sexualização feminina nos quadrinhos e cinema.

O problema é que não deveria existir dois grupos para discutir sobre um fato, sobre uma história que vai além de qualquer uma dessas mídias, vai de séculos atrás, em que tem base na criação da sociedade atual. Fechar os olhos e fingir que não é verdade é como dizer que o ser humano não precisa de oxigênio para viver.



Mas agora é a vez da Arlequina de Margot Robbie, que estará em Esquadrão Suicida.

Não faz muito tempo e novos trailers surgiram e obviamente, como já era de se esperar, utilizaram em diversos momentos a sexualidade da personagem e atriz. Mas é errado? Claro que não. Arlequina é louca e apaixonada pelo Coringa, faria de tudo para ter o seu “pudinzinho” ao seu lado, até mesmo mostrar as pernas.

Além disso, é uma vilã, como a Mulher-Gato e a Hera Venenosa, mostrar as pernas e não ter “pudor” é apenas algumas das características delas. A história em que a garota é apresentada até mesmo pede por um momento de biquíni, mas não é esse o problema.



Vai antes disso. Como já foi dito, nossa sociedade é formada nos moldes machistas e patriarcais, nada mais lógico que os quadrinhos e cinema atribuírem essas características em suas artes. A sexualização exagerada das personagens femininas é uma realidade.

Durante muitos anos a figura da mulher foi de mãe, dona de casa, esposa, destruidora de lares, objeto de mal caminho, frágil, dócil, alguém para subjugar. Estamos no século XXI e para alguns, essa ainda é a visão correta. Não é necessário ir tão longe para saber como a mulher era idealizada, o próprio longa A Bruxa traz muito disso.

No filme, Thomasin é vista como uma ameaça sexual pela própria mãe. A garota está crescendo, tomando corpo e nada parece impedir o  irmão de encarar o seu decote. Nada impede, por esses mesmos motivos e outros, de ser apontada como bruxa.



E todos sabemos qual o fim de uma bruxa, queimada na fogueira. Parece uma ideia extremista, mas a mesma visão criada tão antes, no momento em que Eva mordeu a maça, ainda tem consequências nos dias atuais.

O problema não é apenas com esse gênero. No cinema, principalmente, ainda há diversos personagens que tiram a roupa sem necessidade, mas comparar isso ao que acontece com a figura feminina é o mesmo que dizer que homens, brancos e héteros sofrem preconceito diariamente por estarem nesses ciclos sociais. Estranho, não?

Mais estranho ainda é o motivo pelo qual estou escrevendo esse texto, não sei ao certo se foi quando insinuaram que “estupro é um argumento e não um fato” ou quando falaram que “por ser homem não tem que falar sobre isso.”

Não há lados certos e errados. Uma única personagem que “tem motivos” para ser sexualizada foi criticada e os fãs foram a luta, comentaram, compartilharam e discutiram sobre o assunto. Mas alguns, infelizmente, não entenderam que não é culpa desta única personagem, que vai além, dentre diversas mulheres, culturas e uma sociedade.

A culpa não é do cinema ou dos quadrinhos, até por que a violência e objetificação da mulher acontece até mesmo em lugares sem nada disso, mas da visão deturpada que fazer piada sobre masturbação de uma personagem é “normal”. E que infelizmente, é uma visão que não parece ter expectativa de mudar tão cedo.

Mas para não terminar de forma pessimista, ainda há esperança. No fim das contas, a apresentação da Gal Gadot em Batman vs Superman foi um dos melhores momentos do filme e ela nem precisou ter o corpo da personagem. A Marvel pediu desculpas da capa da Mulher-Aranha que dividiu grupos. Personagens sem apelo sexual exagerado foram surgindo, como as novas edições da Batgirl e a Ms. Marvel.

Não apenas isso, mas esses temas que eram de “feministas” agora estão sendo de todos. E assim, todos sabem como é o salário de uma atriz, o que elas sofrem após envelhecerem apenas alguns anos ou como é difícil para conseguirem um papel. Tudo isso se deu pelo público e o famoso “mimimi”. Arlequina não irá mudar o seu visual, mas o quanto antes aceitarem que é uma problemática válida e está longe de ser "reclamação de quem não entende", melhor.



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