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Crítica: Ressurreição

"Ressurreição" é uma grande e positiva surpresa do subgênero de filmes religiosos por trazer a "mitologia" da história para o mundo contemporâneo.
Crítica: Ressurreição

Normalmente, filmes de temática gospel não são muito sutis ao exporem em sua narrativa a mensagem que querem pregar. Alguns podem focar mais nos eventos do que no significado, como "A Paixão de Cristo" (2004) e outros até subverterem os valores, como "A Última Tentação de Cristo" (1988). Neste novo filme do gênero, "Ressurreição", temos um drama com toque de mistério que parte de uma premissa bem interessante. Para contextualizar o filme com o que conhecemos da bíblia, a história se passa do momento da crucificação de Cristo, passando por sua ressurreição e suas aparições durante alguns dias subsequentes.

Até aí não há nada de novo, mas o grande êxito do filme é contar a história através do ponto de vista de um centurião romano chamado Clavius (Joseph Fiennes). Ele havia sido designado pelo governador Pôncio Pilatos (Peter Firth) para investigar os rumores de um Messias ressuscitado e localizar o corpo de Jesus, desaparecido misteriosamente. Seguindo então uma linha de investigação minuciosa com a ajuda do novato Lucius (Tom Felton, sim, o eterno Draco Malfoy), o eficiente centurião se envolve em mistério que não esperava, fazendo-o questionar suas crenças e toda a sua concepção do mundo.  

Dirigido pelo experiente, porém muito seletivo Kevin Reynolds ("Robin Hood", de 1991 e "O Conde de Monte Cristo", de 2002) "Ressurreição" é um filme que encaixa bem na filmografia do diretor, habituado a temas históricos ou literários como "Rapa Nui" (1994) ou "Tristão e Isolda" (2006), sem dúvidas contribuindo para uma direção muito segura de Reynolds. Há uma boa variação de ângulos de câmera, ele alterna também planos abertos com planos detalhe, pois como o ritmo do filme é bastante lento, essa variação impede a sensação de repetição quando a investigação retorna a um ponto anterior, impedindo o filme de ficar muito cansativo.   

O primeiro ato do filme é muito bem definido, deixando bem claro ao espectador as motivações de tudo aquilo estar acontecendo. Temos uma grande cena de luta na abertura, que lembra vagamente Gladiador, apesar de que não dá pra comparar a presença guerreira "brutal" de um Russell Crowe ou Gerard Butler com a de Joseph Fiennes. Entretanto, Fiennes está excelente no papel, seu personagem é um homem que faz o que tem que fazer, é fiel a suas crenças, mas está sempre de olhos abertos através de uma interpretação bastante introspectiva, em muitos momentos silenciosa e mesmo que não convença como guerreiro, dá um show como investigador e mais do que isso, um homem que busca não apenas saber o que aconteceu, mas que está atrás de respostas para a vida.

Apesar do sotaque inglês não contribuir muito, chegando a incomodar um pouco no início do filme (agora entendo porque Mel Gibson fez questão de utilizar o idioma original no seu "A Paixão de Cristo"), nitidamente foi feita uma grande pesquisa para gerar credibilidade a história, como a menção a vários deuses romanos, o templo rachando ao meio, os métodos utilizados durante a crucificação e até um provável comportamento por partes dos líderes romanos, subestimando a existência de um Messias que veio do povo. Não há nada de muito empolgante na investigação, mas a história toma desdobramentos muito interessantes, principalmente quando conecta seu ponto de vista com os fatos e personagens que já conhecemos da bíblia.

Quanto à investigação que move a trama, um elemento bastante utilizado para tornar a ação do filme mais atrativa é estabelecer um evento importante com a estipulação de um prazo - assim como "Tropa de Elite" (2007) utilizou a vinda do papa como este fator. "Ressurreição" menciona a chegada do Imperador Tiberius, fazendo necessário que aquela situação se resolva com urgência e pressionando o protagonista e o filme rumo a sua resolução. O Jesus do filme (o versátil Cliff Curtis) se parece muito mais com o que especialistas e estudiosos alegam que seria a aparência mais provável de um homem daquela região.

A parte estética do filme remete a jogos de videogame moderno quanto ao uso estilizado das cores, sua estrutura narrativa parece ser influenciada pela mesma fonte ao não focar na estrutura clássica de três atos, mas em busca do protagonista por atingir objetivos, através de uma vertente principal específica (que é a investigação a qual foi incumbido) com algumas tramas menores paralelas, que são o mistério acerca da existência real de um Messias e a busca pessoal de Clavius. Jogos eletrônicos como "The Last of Us" ou "Uncharted" seguem essa mesma estrutura, além de filmes como "300" (2006) ou o mais recente "Macbeth" (2015).

"Ressurreição" é uma grande e positiva surpresa do subgênero de filmes religiosos por trazer a "mitologia" da história para o mundo contemporâneo. A direção de Reynolds mais uma vez é bem segura, Joseph Fiennes está espetacular e como um todo é um filme muito bem amarrado, apesar da investigação não ser tão empolgante como poderia. A produção soube utilizar o orçamento limitado para apresentar um trabalho esteticamente decente, além de contar uma história interessante, onde o filme oferece uma resolução se não realística, ao menos aceitável e de acordo com o universo diegético estabelecido desde o início do filme. Recomendado tanto para religiosos quanto para aqueles que não têm uma crença definida.  

Divulgaí

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