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Crítica: Tirando o Atraso

Crítica: Tirando o Atraso

Tirando o Atraso é uma comédia bastante irreverente, dirigida por Dan Mazer, um dos roteiristas do polêmico "Borat (2006)". Na história, Jason Kelly (Zac Efron) é um jovem advogado que está prestes a se casar com a filha do chefe no próximo final de semana, quando acaba sendo enganado pelo seu recém-viúvo avô Dick (Robert De Niro), que o convence a lhe dar uma carona para curtir umas férias, mas não informa ao neto que pretende ir para o Spring Break, que acontece na Flórida. Ambos ficaram muito tempo sem se falar, e quando criança Jason tinha o sonho de ser um fotógrafo de respeito enquanto Dick escondia de todos - inclusive do seu filho (Dermot Mulroney) - que era na verdade um tenente-coronel das Forças Especiais. Logo Jason descobre que seu avô é um senhor bastante boca suja e zombador, e ainda por cima obcecado por sexo.

Esta premissa já diz muito sobre o que o filme se trata, um besteirol despretensioso, uma comédia adulta, cheia de clichês e referências a outros filmes do gênero, voltada para um público mais "moralmente flexível" - utilizando certo eufemismo para descrevê-lo -, haja vista a grande quantidade de piadas e situações grotescas exibidas, embora isso não o impeça de encontrar seu público-alvo. Para o papel de Dick, outros grandes atores haviam sido cogitados, como Jeff Bridges e Michael Douglas, mas De Niro teve aqui a oportunidade de se aventurar em um trabalho mais ousado, pois mesmo habituado a comédias como a franquia "Entrando Numa Fria (2000 - 2010)" ou "O Lado Bom da Vida (2012)" e o mais recente "Um Senhor Estagiário (2015)", esteve sempre muito contido, reativo às situações cômicas dos filmes. Mas é em "Tirando o Atraso" que ele realmente enfia o pé na jaca.

A comédia é algo essencialmente individual, há questões culturais, políticas envolvidas e etc. A meu ver, o filme pode ser observado de duas formas: a) uma comédia apelativa de extremo mau gosto, que baseia seu humor em estereótipos como a estudante safada (Aubrey Plaza), o velho tarado, o gay afetado (Jeffrey Bowyer-Chapman) e o cara "certinho" que precisa dar uma sacudida na sua vida ou b) um filme que preenche uma lacuna deixada pelos anos "áureos" do besteirol no cinema, como os originais 'American Pie' e 'Todo Mundo em Pânico', tendo seu mérito por ser uma aposta ousada em tempos onde o politicamente correto domina.

Escolhido seu ponto de vista, o espectador precisa saber que haverá momentos realmente engraçados - como quando Dick decide dormir pelado com o neto, relembrando a dupla Nicholson/Sandler em "Tratamento de Choque (2003)" ou um show que ele dá no karaokê -, mas o roteiro tem uns pontos problemáticos e algumas vezes é repetitivo. Quando eu vi Zac Efron em "Vizinhos (2014)", lembro que gostei muito da sua participação por achar que ele encontrou o estilo de filme no qual realmente pode render uma boa atuação. Neste filme eu mantenho a minha boa impressão, apesar de achar que ainda lhe falta personalidade. Como o filme não possui um "vilão" e podemos considerar De Niro no mínimo um anti-herói para a trama, Jason seria o protagonista do filme, mas é engolido pela presença do ator mais experiente. Lembrando que para uma comédia bem concebida, nós precisamos rir junto com o herói e não somente dele, pois ao invés de graça, isso gera na verdade um mal estar na platéia.

É no mínimo interessante ver um ator tão respeitado como De Niro participando de algo assim. E imagino que essa sensação exista desde antes mesmo da criação do cinema, quando artistas satirizavam os reis ou os senhorios opressores da época nas ruas, através de fantoches ou teatrinhos. Ou seja, quanto mais poderoso/respeitado o alvo e mais humilhante for a piada, maior é a catarse da platéia. Está certo que aqui não há a mesma sutileza e timing de grandes filmes como "Corra Que a Polícia Vem Aí (1988)", por exemplo - quem não gargalhou com as trapalhadas de Leslie Nielsen com a respeitada Rainha da Inglaterra? - e esta performance solta e "à vontade" de De Niro é o que efetivamente carrega o filme até o final (quem diria que eu viveria para ver o ator interpretando " it was a good day" de Ice Cube todo cheio de marra?).

Como uma comédia bem escatológica que é, "Tirando o Atraso" é uma farsa (exagero), onde tudo é um tom acima, mas com uma pitada de romance de Jason com uma antiga colega, Shadia (Zoey Deutch) - que não convence, a propósito. Referências costumam ser uma boa forma de se fazer rir, mas neste caso elas foram levadas ao extremo. Além das citadas, notamos um pouco de "Se Beber, Não Case (2009)", "Quem Vai Ficar com Mary (1998)", "Antes de Partir (2007)" e outros. E a excessiva preocupação com essa "homenagem" acaba não desenvolvendo os personagens como deveria, tornando-os unidimensionais. E o problema com os personagens unidimensionais é que o espectador consegue prever exatamente todos os passos, falas e gestos deles antes do esperado, tirando o prazer e a graça de ser surpreendido. A utilização do slow motion e de músicas pop já são previsíveis neste tipo de filme e não chegam necessariamente a atrapalhar a fluidez da narrativa, mas poderiam ter sido reduzidas por conta da sensação de repetição que proporcionam.

Sendo assim, "Tirando o Atraso" é um filme que certamente vai encontrar seu público, mas muito restrito. Talvez seja até um filme que irá atingir mais sucesso quando chegar à televisão. Realmente há momentos engraçados, o elenco segura a bronca e consegue fazer uma base eficiente para atuação à vontade de De Niro, especialmente a química entre a dupla principal. Mas o fraco discurso de "siga seu sonho", "aproveite a vida" não traz nada de novo, o romance introduzido é fraco, bem como a quantidade de estereótipos utilizados, e não fosse a simpatia do elenco, poderíamos estar diante de uma catástrofe como foi "Este é o Meu Garoto (2012)", de Adam Sandler. Felizmente, não chegamos a este ponto aqui e o filme é ao menos assistível.
Divulgaí

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