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Reflexões de um cinéfilo: “E se o homem branco fosse o oprimido?”

E se o homem branco fosse o oprimido?

Ser mulher na década de cinquenta não era fácil. Ser negra ainda por cima não melhorava a situação. Hattie McDaniel tinha as duas características e quebrou tabus ao ganhar o Oscar por interpretar a escrava negra em “E o Vento Levou”. Talvez não tenham visto tanto problema pelo fato de a personagem da atriz ser uma escrava. Ela estava “em sua posição social correta”. Mas esse não foi o caso da trama e do ator Sidney Poitier, que, imortalizado por “Ao Mestre Com Carinho” e “Adivinhe Quem Veio Para o Jantar”, por um breve momento, se tornou um galã de filmes, podendo ser comparado a George Clooney. Talvez não houvesse problema. Ele era homem, tinha mais vantagens sociais que as mulheres. E era ator, tinha mais vantagens que o resto dos negros.

Hattie McDaniel e Sidney Poitier

Talvez essa breve introdução não faça sentido hoje em dia, ou pelo menos não deveria. Mais de cinquenta anos depois de ícones do cinema terem conquistado seus primeiros prêmios, ainda temos problemas em escalar um casal formado por uma mulher branca e um negro em um filme. O mais irônico é que o mundo onde esses dois atores interpretaram seus papéis é um lugar futurístico, onde humanos convivem com seres de pele esverdeada, robôs dourados e desertos gigantescos. Sim, estou falando de “Star Wars”. Irônico é achar que centenas de anos no futuro e ainda teremos problemas apenas porque o herói de uma história não é homem e branco. Mas foi assim que aconteceu, durante anos.

A situação não seria tão desconfortável se fosse apenas esse caso. Apenas no ano de 2015, houve problemas na escalação de Michael B. Jordan, negro, para viver o Tocha Humana no reboot de “Quarteto Fantástico”; na escolha de Charlize Theron para tomar um papel mais ativo no mundo caótico de “Mad Max” e também sobre a possibilidade de Idris Elba ser o próximo rosto de James Bond. O motivo? O verdadeiro Tocha Humana é branco. O protagonista de “Mad Max” é um homem.  Idris Elba é “muito das ruas” para ser James Bond.

O cinema sempre foi uma ferramenta para misturar culturas, gêneros e etnias, mas nos cem anos de sua existência, ele apenas refletiu a sociedade. Isto é, se um personagem feminino tinha papel de destaque, obrigatoriamente, ela deveria ter um homem para fazer um par romântico, deveria ser submissa, e, se não fosse, é porque ou era uma “femme fatale” ou no fim iria mudar sua personalidade por ele. E se fosse negro, ele era um escravo dos brancos. Até mesmo em “A Noite dos Mortos Vivos”, em que George A. Romero traz um negro tomando uma situação de líder, no fim, ele está apenas fazendo o trabalho pesado para a mulher em estado catatônico.

Tentar mudar cem anos de cinema parece difícil. Houve algumas quebras de paradigma, seria tolice ignorá-las. Sidney Poitier ganhou um Oscar.  Quem dá voz a Darth Vader é James Earl JonesSamuel L. Jackson já participou da franquia Star Wars, assim como Billy Dee Williams. Todos negros. Dorothy Danbridge foi indicada como melhor atriz, mas não ganhou o Oscar em 1955, mas 47 anos depois, Halle Berry ganhou o prêmio pelo seu papel em “A Última Ceia”. A “santinha” do cinema, Audrey Hepburn, interpretou uma garota de programa em “Bonequinha de Luxo”. Sem contar Carrie Fisher, que se tornou um ícone na cultura nerd e pop. Mais tolice ainda é ignorar isso tudo e pedir o boicote do novo filme da franquia, porque, para alguns, J.J. Abrams é um “ativista judeu” e está promovendo o “genocídio branco”.

Mudanças são sempre difíceis. Talvez toda a polêmica em volta do personagem seja uma questão de origem, sobre fazer sentido ele ser negro naquele enredo e universo. Mas não dá para ignorar que ninguém se importou sobre a possibilidade de Daniel Craig ser um stormtropper, mas todos se sentiram alarmados quando perceberam que John Boyega poderia ser, sendo que o stormtropper original está longe de ser como qualquer um dos dois. Ele é latino.

Parece que toda a “supremacia masculina e branca” formada durante todos esses anos no cinema e na sociedade está perdendo poder por causa de uma meia dúzia de filmes de fantasia. De repente, é hora de prestar atenção nos “ativistas judeus”, “mulheres radicais” e “negros rebeldes”, por que como disse Viola Davis, “a única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra é a oportunidade” e parece que finalmente a "cidade dos sonhos" está se afinando com o sonho americano e virando, enfim, uma "terra de oportunidades". Mais e mais cercas vão cair.


Divulgaí

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