Loucos por Filmes

Loucos por Filmes

Destaques

Últimas

Navegação

Crítica: Cidades de Papel

Crítica: Cidades de Papel

Há quem diga que a maioria das pessoas não vai ao cinema graças a propagandas publicitárias milionárias. Os mais românticos defendem a tese de que o filme “encontra seu público” de alguma forma (seja por indicação de um amigo, um livro com o qual se identificou, etc). Afinal, não há publicidade mais caprichada que te obrigue a ver um filme de um gênero/assunto que você não gosta, não é mesmo?
Até o início da década de 60, o cinema em Hollywood ainda era muito conservador. A indústria já havia passado pela sua “era de ouro” e concebido alguns dos principais clássicos que perduram até hoje. Só que mesmo os pólos mais tradicionais do ramo – como os EUA e o Reino Unido – se renderiam à década que ficou marcada pela liberdade pessoal e revolução à maneira de pensar e agir. Na Inglaterra, surgia o polêmico “As Aventuras de Tom Jones” (1963), enquanto nos EUA, Dustin Hoffman estrelava “A Primeira Noite de Um Homem” (1967).
Naquela época, a ideia de gênero clássico (Drama, Terror, Comédia, etc.) já poderia ser considerada ultrapassada e o cinema não era mais visto apenas como uma forma de "arte", mas já reconhecido como uma prática social: um lugar para sair com amigos em busca de entretenimento. A necessidade por mais subgêneros foi aumentando e nas décadas seguintes foram surgindo os primeiros principais nomes em filmes especialmente voltados para o público jovem. "Loucura de Verão" (1973) de George Lucas - que contava a história de um grupo de alunos no ensino médio curtindo a última noite antes da faculdade - talvez possa ser considerado o primeiro grande sucesso de crítica e público neste subgênero, sendo indicado a 5 Oscar (incluindo Melhor Filme, Roteiro e Diretor). Depois disso, John Landis surgiria com "O Clube dos Cafajestes" (1978), Harold Ramis com "O Clube dos Pilantras" (1980), Amy Heckerling com "Picardias Estudantis" (1982), até a primeira aparição do "mito" dos filmes para adolescentes John Hughes, com "Gatinhas e Gatões" (1984). Pronto, o subgênero de comédias adolescentes já estava solidificado e era garantia de sucesso para as produtoras.

Adaptado do best-seller de John Green, "Cidades de Papel" é um desses filmes com público-alvo específico e conta a história de Quentin Jacobsen (ou “Q”) e sua misteriosa vizinha Margo Roth Spiegelman (Green gosta de usar nomes compostos em suas garotas, como fez com Hazel Grace Lancaster em A Culpa é das Estrelas), a qual ele se apaixonou desde que a viu pela primeira vez, quando ainda eram crianças. Margo (Cara Delevingne) sempre teve um espírito bem aventureiro e misterioso, enquanto Quentin (Nat Wolff, o amigo de Gus em A Culpa é das Estrelas) era um bom aluno, pacato e não queria se meter em encrencas. Este contraste de personalidades acabou afastando os dois, apesar de estudarem juntos, os anos foram passando e ambos já nem se falavam mais. De repente, Margo aparece no quarto de Quentin e pede sua ajuda para concluir uma série de tarefas no meio da noite. Entretanto, após a noite de aventuras juntos, Margo simplesmente desaparece, deixando pistas de onde foi para Quentin decifrar. Com seus amigos, Lacey (Halston Sage), Ben (Austin Abrams) e Radar (Justice Smith), "Q" parte em uma aventura de perigos e descobertas atrás de Margo, aprendendo no caminho muito sobre a verdadeira amizade e o amor.

Partindo da premissa de que às vezes “é necessário se perder para se encontrar”, o diretor Jake Schreier (Frank e Robô) trabalhou baseado na adaptação do roteiro de dois velhos conhecidos do gênero e de John Green, Scott Neustadter e Michael H. Weber (500 Dias com Ela, A Culpa é das Estrelas). Mais uma vez, os roteiristas trabalham de forma simples, focados em se comunicar com o público mais jovem. Não me admira que muitos dos críticos mais "tradicionalistas" tenham dificuldades em enxergar as qualidades de um tema como este, pois eles não vivenciam - e talvez não valorizem - histórias como a que o filme propõe e mesmo na sua juventude, tinham outras preocupações, portanto não compreendem. O significado do título é explicado durante a investigação dos garotos: "cidades de papel" são cidades inventadas por quem desenha os mapas, com o objetivo de "proteger" seu trabalho contra cópias não autorizadas. No sentido metafórico, em uma conversa entre Margo e Quentin em um prédio com uma vista linda da cidade no meio da noite, a garota divaga sobre o que seria uma cidade de papel para ela. No diálogo, ela expressa que os planos que as pessoas fazem em busca da felicidade e a vida, mesmo planejada minuciosamente, nunca serão perfeitos. Portanto, vive-se uma vida artificial, uma vida "de papel", como a cidade que não existe.

Apesar de parecer que ambos têm o mesmo peso para a trama, o protagonista de verdade é Quentin. Margo aparece menos e funciona como uma espécie de "mentora" para o jovem. Prova disto é que todas as suas mudanças interiores até o final do filme são impulsionadas pela influência da garota, seja com o objetivo de realmente mudar de vida ou por querer declarar seu amor verdadeiro escondido há tanto tempo. Mas o principal problema de "Cidades de Papel" está na construção dos seus personagens coadjuvantes, que têm pouca profundidade. Segundo o conceito de Foster, existem os personagens multidimensionais e os unidimensionais. É uma pena que, com exceção de Quentin e Margo, todos os outros sejam unidimensionais, ou seja, criados a partir de uma única característica dominante - fazendo com que caiam em estereótipos como o da menina valorizada apenas pela sua beleza, do atleta brigão, do inteligente, do nerd, da mãe solteira inexplicavelmente sensual (o que sempre rende algumas boas piadas) e etc...

Bem menos emotivo que "A Culpa é das Estrelas" - em compensação, mais engraçado - o filme tem um tom bem mais light e se assume mais para o lado da comédia do que do drama e do romance. Fala sobre a importância do adolescente ser protagonista de sua vida, não ter medo de arriscar, correr atrás do que quer independentemente da distância e que também o aprendizado é tão importante (ou mais) do que a própria lição. O importante é se auto-descobrir. Não que os jovens devam seguir literalmente as idéias aqui apresentadas, mas são preocupações pertinentes nesta idade.

Como eu havia dito, Cidades de Papel é mais uma comédia do que qualquer outra coisa, e agrada bastante. Apela um pouco para os clichês, como festas com muita bebida, piadas de mãe, o típico colégio norte-americano, o baile, entre outras coisas, mas merece elogios por colocar o pé na estrada e assim tornar mais aventureira a missão da turma, aproveitando belos cenários e paisagens. Inclusive, é na estrada que acontece um momento interessante, um cameo (aparição de algum ator/diretor/celebridade não creditado no elenco do filme). Ansel Elgort - o Gus de "A Culpa é das Estrelas" - aparece, mas não vou dizer nem quando e nem onde.

Sendo assim, o filme é bom no que propõe ao seu público-alvo. Cidades de Papel pode estar para os adolescentes de hoje como "A Primeira Noite de um Homem (1967) já esteve para uma geração, "O Clube dos Cinco" (1985) esteve para outra, "10 Coisas Que eu Odeio em Você" (1999) para outra, "Meninas Malvadas" (2004) e assim por diante, cada um com suas preocupações e atitudes referentes à sua época. Só o tempo dirá se vai se tornar uma marca desta geração, mas ao menos um bom papel na bilheteria ele deve fazer.


Divulgaí

Deixe sua opinião:)