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Crítica: Jessabelle – O Passado Nunca Morre

Crítica: Jessabelle – O Passado Nunca Morre

Todos os meses, cinemas no mundo inteiro são inundados com filmes que prometem ser “assustadores como você nunca viu”, “de arrepiar a espinha” e etc. Mas, à medida que os anos passam, fica cada vez mais difícil assustar o espectador, pois sabemos que quantidade não é sinônimo de qualidade e o desconhecido - elemento que naturalmente faz o ser humano sentir medo - na era da informação e tecnologia em que vivemos perde toda sua plausibilidade e como conseqüência, sua capacidade de assustar. Assim como mencionei na minha crítica anterior, um exemplo disso é o recente remake de “Poltergeist”, pois se contextualizarmos a época de seu lançamento, lá em 1982, onde utensílios ordinários hoje em dia como microondas, torradeira, liquidificador e a própria televisão ainda eram “desconhecidos” para muitos, conseguimos entender o pânico e medo gerado no público que tornaram o filme um sucesso na época. Neste mesmo raciocínio, conseguimos entender como a versão deste ano não obteve o mesmo resultado, levando em conta que não trouxe nada de novo e “desconhecido” para o público.

Sendo assim, os responsáveis pelos filmes de terror atualmente decidiram explorar o desconhecido de uma forma bem específica: fenômenos sobrenaturais, possessões demoníacas e outros assuntos que a mente humana ainda não conseguiu explicar logicamente, resgatando uma época de terror psicológico que fez muito sucesso no final da década de 60 (O Bebê de Rosemary, 1968), durante toda a década de 70 (O Exorcista, 1973, Carrie – A Estranha, 1974 e A Profecia, 1976) e a primeira metade da década de 80 (O Iluminado, 1981). Uma equipe experiente em filmes do gênero, encabeçada pelo produtor de Atividade Paranormal e Sobrenatural, somada ao diretor/editor Kevin Greuber (franquia Jogos Mortais) apresenta mais uma história dentro do assunto, desta vez com Jessabelle: O Passado Nunca Morre. O único ponto “fora da curva” na equipe é o roteirista Robert Ben Garant, mais famoso por roteirizar filmes infantis (Operação Babá, Uma Noite no Museu, Herbie, Meu Fusca Turbinado), no mínimo uma escolha curiosa da produção.

Na história Jessabelle (Sarah Snook), está de volta à cidade onde passou sua infância, na “caipira” e isolada Louisiana para se recuperar de um traumático acidente de carro, no qual perdeu seu filho ainda não nascido e seu noivo. Ao retornar a sua antiga casa para viver com seu pai alcoólatra Leon (David Andrews), ela se depara com um espírito atormentado há muito tempo, e que aguardava seu retorno, para não deixá-la escapar novamente da casa. Este contato com o “outro lado” acontece quando Jessabelle encontra uma caixa de fitas VHS embaixo da cama de sua falecida mãe (Joelle Carter). Com o auxílio de um velho amigo Preston (Mark Webber), a garota parte em uma perigosa investigação tentando descobrir o que está acontecendo.

O filme tem a mesma atmosfera de outros recém-lançados do gênero, como Annabelle, Ouija, Livrai-nos do Mal, Mama e O Espelho. E justamente assim como este último (em comum os dois filmes têm o mesmo Diretor de Fotografia, Michael Fimognari), um ponto positivo que agrada bastante é que enquanto o clima de suspense vai sendo construído, além de alguns bons sustos e momentos que proporcionam aquele “friozinho na barriga” (antecipação do suspense, como o mestre Hitchcock chamou), o filme não se propõe deliberadamente a chocar visualmente, com banhos de sangue e o uso de “set-pieces” forçadas - aqueles momentos inevitáveis para um filme do gênero, como por exemplo, uma explosão em um filme de ação, um beijo em um filme de romance ou, no caso de um filme de terror, quando a pessoa está na cama, ouve um barulho e decide ir atrás no escuro, corajosamente. A trilha sonora de Anton Sanko (Ouija), pode não trazer nada de espetacular, mas ao menos não passa despercebida ou incomoda em um tom exagerado demais.

Kevin Greuter (Editor dos “sucessos” Jogos Mortais de I a V e diretor dos dois últimos filmes da franquia, VI e VII), expressa o quanto amadureceu em relação aos seus filmes anteriores, mostrando e ocultando exatamente o que julgou necessário com segurança. E convenhamos, como diria o “mago” das edições Walter Murch, o editor de um filme é praticamente um segundo diretor, com decisões igualmente difíceis e que podem determinar o sucesso ou fracasso do projeto. Essa experiência Greuter tem de sobra, e com um ótimo trabalho – especialmente nos dois primeiros filmes da franquia Jogos Mortais - diga-se de passagem.

A utilização de alguns simbolismos metafóricos também é digna de nota, mesmo que tenham sido subaproveitados. De semelhante forma ao que Hitchcock fez em Janela Indiscreta (1954) e D.J. Caruso “reciclou” em Paranóia (2007), o fato de Jessabelle ficar em uma cadeira de rodas é uma analogia a sua condição de “aleijada” emocionalmente, e na dependência de outras pessoas, que ela abandonou no passado.  Ao adentrar no quarto escuro e abandonado de sua mãe pela primeira vez, sentimos junto com a protagonista a metáfora de “descer ao porão”, ou seja, mergulhar na escuridão do próprio inconsciente como quem quer esconder-se de um problema e se isolar até que consiga levantar por conta própria. Isso sem falar no “clichê” (digo isso por ser um dos simbolismos mais utilizados no cinema) que é emergir das águas, como quem lava as culpas do passado e renasce.

Entretanto, o suspense desmorona à medida que os segredos vão sendo revelados. Um dos principais problemas de Jessabelle está na resolução do seu roteiro, onde ele se perde bem no ápice do seu mistério e acaba recorrendo para o “lugar comum”, sendo que era exatamente aí que poderia ter ousado muito mais – citando como exemplo bem-sucedido, o nacional O Lobo Atrás da Porta. A cada tentativa de explicação da história, a atmosfera e o mistério (que já não eram muito grandes) vão dissipando e dando lugar a um thriller morno e previsível. E, confiem em mim, não há nada mais entediante que um filme de terror previsível. Um erro grave, pois todo o clímax que moveria o filme rumo a sua resolução, perde a força. A oposição não é forte o suficiente a ponto de encurralar a protagonista e deixá-la totalmente sem esperança.

Apesar de seus problemas de roteiro, que prejudicam muito o saldo final do filme, Jessabelle revela em Sarah Snook uma atriz muito expressiva e de potencial, que merece ser observada um pouco mais de perto. Tem uma estética bem construída e momentos de real apreensão, que é o que procuramos em um filme do gênero. Em comparação com os inúmeros filmes lançados no cinema todos os meses (citados no início do texto), é ligeiramente superior, e visto no cinema, onde nossos sentidos são levados ao mais extremo, acaba sendo uma boa experiência coletiva, no mínimo interessante.


Divulgaí

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