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Crítica: Promessas de Guerra

Crítica: Promessas de Guerra
Russell Crowe, vencedor do Oscar de melhor ator por “Gladiador”, e estrela de filmes como “Uma Mente Brilhante” e “O Informante”, estreia na cadeira de direção com o filme “Promessas de Guerra” além de atuar como protagonista no papel do australiano Joshua Connor. O ano é 1919, e o que vemos já no início do filme é um homem arrasado pela morte dos seus três filhos na batalha de Galípoli, que ocorreu entre os anos de 1915 e 1916 durante a primeira guerra mundial, em que forças britânicas, francesas, australianas e neozelandesas (as divisões ANZAC) desembarcaram em Galípoli, na Turquia, com o objetivo de conquistar o estreito de Dardanelos, de posse dos turcos.

Para agravar ainda mais a situação, sua mulher, devastada pela tragédia, se mata; mas ao invés de se entregar à dor e resignação por ter perdido todos seus entes queridos, Joshua decide ir atrás dos seus filhos para, ao menos, enterrá-los juntos da mãe. A história se passa de maneira a vermos intercalados os dois momentos que, embora estejam separados por 4 anos, se ligam intimamente e fazem a trama se desenvolver. Cenas da guerra de Galípoli e da procura incansável – quatro anos depois – do pai pelos seus filhos, vão aos poucos sendo mostradas, e o espectador vai conhecendo e se envolvendo no drama do protagonista.

Fotografia e direção de arte são um destaque à parte; tudo é feito com o intuito de manter o plano carregado de beleza, desde o cuidado com que tudo é montado na cena, até a maneira com que a câmera se posiciona. Paradoxalmente, é possível que esse cuidado tenho sido excessivo, e em um filme que trata de uma temática tão dura, às vezes é necessário um tipo de filmagem também dura, que reforce aquilo que está sendo mostrado. De qualquer forma, é melhor pecar pelo excesso do que pela falta.

Outro fator que foi um pouco perturbador é a indecisão entre contar uma história de guerra – e da difícil empreitada de Joshua Connor na busca pelos corpos dos três filhos – ou uma história de amor. Connor conhece a bela Ayshe, interpretada por Olga Kurylenko (de “Amor Pleno” e “007 - Quantum of Solace”), e os dois passam todo o filme trocando olhares, envolvendo-se em pequenas brigas, até o ponto do irmão do marido de Ayshe se interpor na potencial relação que estava se formando. Na tentativa de contar duas histórias, Russell Crowe acaba se perdendo um pouco. Embora esse fator esteja longe de comprometer o filme como um todo, acaba desvalorizando um pouco a trama principal – a procura pelos filhos mortos – o que prejudica um pouco a história, que acaba sendo contada de maneira acelerada, fazendo o espectador se perguntar algumas vezes como o personagem de Russell Crowe chegou à determinado lugar, ou conheceu tal pessoa, etc.

Voltando à trama principal (até eu me desviei um pouco do assunto), o povo turco, principalmente os militares, são mostrados como um povo bom e acolhedor – até mesmo o Major Hasan, que participou da guerra quatro anos antes e era conhecido por não perdoar nem os prisioneiros de guerra, é mostrado com alguém benevolente e que ajuda Connor na sua busca. Os ingleses, por outro lado, não são tão simpáticos assim, e relutam em ajudá-lo, inclusive querendo capturá-lo e mandá-lo de volta para a Austrália. Em outras palavras, há um certo maniqueísmo no tratamento dos dois países que lutaram em Galípoli.

Os problemas que apontei aqui são leves e, como disse antes, não comprometem o filme, que é contado com sobriedade. As atuações dos personagens são ótimas – Russell Crowe é sempre muito firme ao atuar, parecendo estar à vontade mesmo tendo que assumir, também, a cadeira de diretor; Olga Kurylenko mostra tanto força quanto vulnerabilidade no seu papel de mulher submissa às tradições que cultura e religião impõem. Mas o destaque fica por conta de Yilmaz Erdogan no papel do Major Hasan, que brilha ao mostrar uma personalidade sensível e honrada mesmo mantendo uma atitude dura em todas as situações pela qual passa. O ator dá muita força ao filme, e seu personagem cria uma relação muito interessante com Joshua Connor – relação esta que se divide entre respeito e temor.

No final das contas Promessas de Guerra é um bom filme e uma ótima estreia para um diretor novato; além disso, a escolha da batalha de Galípoli, desconhecida para a maioria de nós, é importante para sair do comum em filmes de guerra. O filme mostra o coletivo – o horror da guerra, a intolerância entre povos e o choque entre culturas – ao contar o particular: um pai que, devastado pela morte dos seus três filhos, quer apenas dar um enterro digno a eles.

Divulgaí

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