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Crítica: Poltergeist - O Fenômeno


O ano é 1981. Um jovem diretor (Sam Raimi, aos 22 anos!) estoura com um filme de baixo orçamento que se tornaria um grande sucesso “cult” posteriormente e acaba consolidando um novo subgênero de filmes de terror, a "cabana amaldiçoada", que seria muito referenciada futuramente. Utilizando técnicas de “stop-motion” (que apesar de não serem eram tão inovadoras), aliadas a um estilo único de direção e estética, seu filme "A Morte do Demônio" foi considerado por muitos grosseiro e polêmico, mas isso solidificaria o que chamamos hoje de cinema “gore” (ou seja, de conteúdo chocante, nojento,etc.). Apenas um ano depois, o diretor Tobe Hooper (O Massacre da Serra Elétrica, 1974) traria para as telas uma história de um já conhecido Steven Spielberg, de uma família que foi morar em uma casa visitada por fantasmas. Em um primeiro momento, os visitantes pareciam amigáveis, brincando com objetos para a diversão da família. Mas tudo isso muda e as coisas saem do controle quando eles sequestram Carol Anne (Heather O'Rourke), a filha mais jovem do casal, em Poltergeist: O Fenômeno (1982). Este último também foi bastante elogiado, indicado a 3 Oscar e considerado referência de um bom filme de terror, um clássico dos anos 80.

Você pode estar se perguntando o que estes dois fatos têm em comum, além da proximidade de suas datas e o gênero terror. Mas quis o destino que três décadas após dois fatos aparentemente isolados, embora subsequentes, Raimi  produzisse o remake do clássico "Poltergeist", com roteiro de David Lindsay-Abaire (Reencontrando a Felicidade, 2010) e direção de Gil Kenan, indicado ao Oscar por "A Casa Monstro" (2006).

Ao contrário do que muitos pensam, o gênero terror é um dos mais ricos do cinema. Enquanto o drama lida com o sofrimento abordando questões éticas e morais, a comédia com a expulsão dos males através do riso, a ação/aventura com a admiração da coragem do herói, a ficção/fantasia explora o poder da imaginação, o terror funciona através de um dos nossos sentimentos mais básicos: o medo. O bom filme de terror é aquele que consegue unir vários dos elementos mencionados. Aristóteles dizia - em outras palavras - que o motivo de assistirmos a um filme de terror seria recriar nossos pesadelos para compreendê-los ou liquidá-los, seja no conforto e segurança de nossas casas ou tendo uma experiência coletiva em uma sala de cinema, bem como se fazia antigamente nos anfiteatros gregos.

Infelizmente, o novo Poltergeist não obtém sucesso naquilo que propõe: causar medo (não é por acaso que o slogan do filme seja "Eles sabem o que te assusta"). O filme possui vários problemas em criar o ambiente ideal para que o espectador pudesse mergulhar e se envolver com a história. Deixe-me explicar melhor: a ciência afirma que aquilo que nos dá pena ao ver acontecer com os outros, provoca em nós o medo de estarmos na mesma situação daquela pessoa. Inconscientemente, nos faz refletir sobre aquilo que mais temeríamos perder - filhos, familiares, liberdade, emprego dos sonhos, etc. Para que tal identificação aconteça, é necessária uma história que intrigue o espectador e a criação de personagens plausíveis ( não necessariamente "reais"). O elenco do filme era algo animador, pois tínhamos o versátil Sam Rockwell como o pai de família Eric Bowen. Quem acompanhou a série Mad Men certamente se lembra de Rosemarie DeWitt e Jared Harris, dois atores de boa capacidade dramática, mas que vítimas de um roteiro fraquíssimo acabaram com atuações de pouco brilho, juntamente com o próprio Sam. As crianças não passam de "estereótipos" de filhos de uma família de classe média americana e pouco fazem também. E é aí que o filme peca mais uma vez. Perder uma filha é uma das maiores dores para um pai ou mãe, sem sombra de dúvidas. Mas quem acompanhou Brian Mills (Liam Neeson) derrubando toda Paris atrás de sua filha em "Busca Implacável" (2007), não pode se contentar com a apática perda do casal em Poltergeist. São dois contextos bem diferentes para avaliar, é verdade, mas o que estou julgando agora não é a performance dos atores e sim a construção do personagem e a plausividade do roteiro, de níveis bem diferentes.

Basicamente, o diretor Gil Kenan apenas contextualizou a obra para os dias atuais, o que demonstra sua inexperiência levando em conta o rico material que um dos filmes de terror mais bem aceito pela crítica na década de 80 poderia oferecer. Faltou ousar mais, sair de sua zona de conforto de direção linear e trabalhar melhor a parte estética com seus diretores, especialmente Javier Aguirresarobe - que havia feito um trabalho fantástico no suspense "Os Outros" (2001). O mau uso de técnicas narrativas como alguns foreshadowings (deixar pistas que se conectem ao longo do filme, para dar mais "realismo" aos acontecimentos subsequentes), a fraca utilização do escuro e da noite, que poderia ter deixado o espectador mais tenso, "diminuindo" sua antecipação do que está por vir e com isso reforçar uma atmosfera mais sombria ao filme foram outros problemas que deveriam ter sido reconsiderados. Vale lembrar que em um filme de terror a linguagem visual é extremamente importante para adequar a atmosfera aos diferentes momentos emocionais do filme.

Diante de tudo o que foi dito, podemos concluir que Poltergeist não é melhor e nem pior do que muitos outros remakes feitos nos últimos anos. Lhe falta coragem, novas e boas idéias, entre outras coisas. É um filme que pode até ir bem nas bilheterias e ter o retorno de seu investimento, graças a carência de grandes concorrentes do gênero atualmente. Mas para os fãs do clássico original e mesmo o novo público ansioso por grandes sustos e noites sem dormir com as luzes acesas, é um tanto decepcionante. Se você é fã de filmes de terror como eu, não será desta vez que poderá exterminar seus pesadelos e fantasmas interiores, então o jeito é aguardar a próxima sessão de exorcismo em um cinema mais próximo da sua casa.

Divulgaí

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