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Crítica: Terceira Pessoa

Crítica: Terceira Pessoa
Paul Haggis se destacou como roteirista ao ser indicado nada menos que três vezes consecutivas ao Oscar, por Menina de Ouro (2004), Crash – No Limite (2005) e Cartas de Iwo Jima (2006), sendo que ganhou os prêmios de Melhor Filme e Roteiro Original por Crash. Haggis também foi o responsável por escrever os dois primeiros filmes da “retomada” de James Bond, Cassino Royale (2006) e Quantum of Solace (2008), além de escrever o argumento do jogo de vídeo game que virou sucesso mundial Call of Duty: Modern Warfare 3. Após se estabilizar como um dos principais roteiristas de Hollywood, Haggis passou a dirigir alguns filmes também, como havia feito com o próprio Crash, um filme com várias histórias interligadas sobre racismo que se unem como um mosaico. Embora um pouco exagerado em seus estereótipos, o filme foi lançado durante a “paranoia” do pós-11 de setembro e assim obteve um curioso sucesso ao subverter uma das “teorias” da escrita que diz que estereótipos não funcionam tão bem quanto arquétipos, pois seu brilhante roteiro mostrou que mesmo um estereótipo que não subestime a inteligência do espectador e seja bem utilizado para causar comoção, é capaz de tocá-lo emocionalmente e funciona perfeitamente na tela. Mas essa é uma linha muito tênue...

Seu mais novo filme, chamado “Terceira Pessoa” é um projeto pessoal bastante ousado, onde Haggis escreveu e dirigiu três histórias que ocorrem simultaneamente em Paris, Nova York e Roma, e conta com um elenco estelar, como Liam Neeson, Mila Kunis, Adrien Brody, Maria Bello, Kim Basinger e Olivia Wilde. Na trama, Michael (Neeson) é um escritor vencedor do Pulitzer que está em processo de separação com a esposa (Basinger) e vai a Paris para terminar seu último livro. Se sentindo pouco inspirado, ele acaba reencontrando um caso seu, uma aspirante a escritora chamada Anna (Wilde), que alimenta uma paixão muito forte por ele, embora nenhum dos dois “baixe a guarda” e assuma o relacionamento. Em Roma, um homem de negócios, Scott (Brody), entra em um bar “americano” para se sentir em casa quando conhece uma bela e misteriosa mulher (Moran Atias), que precisa de dinheiro para pagar o resgate de sua filha sequestrada. E em NY, uma ex-atriz chamada Julia (Kunis) luta na justiça contra o ex-marido (James Franco) pela guarda do filho de seis anos, com o apoio de sua advogada Theresa (Bello).

Apesar do elenco sólido, Terceira Pessoa é um drama bastante complicado pela complexidade de suas histórias e por mais uma vez o diretor se arriscar em um mundo de estereótipos, com personagens e situações caricatas. Se antes o tema que motivou Haggis foi o “racismo” e a situação era propícia para um filme deste conteúdo, aqui podemos dizer que o “amor” seja abordado, mas especialmente a “confiança” seja a característica principal contida nas três histórias. Em termos técnicos, é um filme muito bem feito, que não chama a atenção mais do que a própria história, e nisso incluo a trilha sonora, direção de arte e fotografia. As atuações estão dentro do aceitável também, com exceção de Olivia Wilde, que é a única que se destaca realmente, com uma interpretação mais ousada – e não me refiro às cenas sensuais – nitidamente se entregando mais do que o restante do elenco. Os personagens de Mila Kunis e Adrien Brody, juntamente com o de Olivia, são os mais interessantes e complexos, mas ambos não conseguem oferecer uma interpretação maior do que medíocre, sem comprometer negativamente, porém tampouco provocar a catarse pelo drama que estão passando.

Tanto na parte estética, quanto na escolha dos planos e posições de câmera utilizadas, Terceira Pessoa lembra muito uma novela contemporânea. Podemos até tomar um exemplo mais próximo, como a novela Império. A paleta de cores muda de acordo com a história apresentada: tons azulados (frios) em NY, cores quentes e fortes em Roma (paixão) e uma alternância de tons acinzentados (sóbrios) e cores vivas em Paris, indicando a incerteza do romance. Na escolha da decupagem do roteiro, Paul Haggis mostrou a falta de sutileza de sua direção. Muitos closes revelando caras e bocas exageradas, a falta de “tridimensionalidade” de alguns planos, além de situações envolvidas e ações dos personagens com as emoções “a flor da pele”, contribuíram para que a história ficasse em excesso um tom acima, chegando a se tornar um melodrama. Vale lembrar que o melodrama surgiu como uma alternativa às mulheres desde os primeiros anos do cinema, devido aos filmes de crime, máfia e violência que eram voltados ao público masculino naquele tempo. Adultérios, traições, crimes passionais, romances proibidos, sequestro de crianças, etc. Sim, garanto que tudo isso já foi visto por você em alguma novela brasileira, portanto, a comparação é inevitável.

Finalizando, Terceira Pessoa não é um bom filme, é uma novela em formato cinematográfico. Robert McKee escreveu uma vez que quando pessoas de talento, como Paul Haggis, escrevem mal, geralmente um dos motivos é ficar cego por uma ideia que se sentiu obrigado a provar, ou por uma emoção que necessita expressar. E quando essa pessoa escreve bem, é com um único objetivo: tocar o público. Claramente Paul Haggis, que tem uma tendência a exagerar seus temas, perdeu sua história no meio das suas próprias complicações de roteiro. O espectador passa muito tempo tentando entender a ligação entre as histórias (que talvez nem exista) e não consegue se “humanizar” com o drama dos personagens e criar empatia por eles. Se o tema do filme é confiança, faltou exatamente isso para que o diretor/roteirista entregasse o tom certo de conflito para que nós, espectadores, com nossa altíssima capacidade de resposta e sensibilidade (muitas vezes os cineastas esquecem disto), pudéssemos devolver com lágrimas, risos, amor, ódio, etc. Haggis olhou apenas para sua obra e não antecipou a reação do público, tornando todo seu esforço criativo sem sentido, afinal.
Divulgaí

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