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Crítica: Cinquenta Tons de Cinza

O cinema sempre gera calorosas discussões quando o tema é: Arte x Indústria. Desde os seus primórdios, ao longo de pouco mais de um século de existência o cinema alternava entre a expressão criativa do artista (a história que ele queria contar), e a aceitação popular, pois o sucesso ou fracasso de uma obra já estavam diretamente relacionados às bilheterias da classe operária, principal consumidora do “produto” na época. Não há uma explicação exata para entendermos como, em pleno século 21, muitos não conseguem aceitar que o cinema é uma indústria sim, que visa lucros e formas de se manter em atividade no seu ramo de negócio, assim como qualquer outra empresa. Um exemplo da importância do “olhar industrial” é o filme “O Portal do Paraíso” (1980) que custou $44 milhões de dólares após um orçamento inicial sete vezes menor e ao redor do mundo arrecadou apenas $1,5 milhão, levando à falência o estúdio United Artists, um dos mais tradicionais da história, que fora fundado em 1919 por vários artistas, entre eles, Charles Chaplin.

Claro que não é nada “romântico” pensar assim. Principalmente para nós, os cinéfilos, a Sétima Arte é muito mais do que isso. Quando pensamos em cinema, nos apaixonamos pela “conexão emocional” que um filme nos proporciona, através de um grupo seleto de artistas da mais alta categoria: atores, atrizes, diretores, escritores, fotógrafos, músicos, estilistas, escultores, maquiadores, etc. Naquele momento não queremos saber que foi um produtor – um homem de negócios – que tornou aquela experiência viável e possível. Nem paramos para pensar quantos filmes foram preteridos para que pudéssemos ver aquele filme, naquele horário e naquela sala daquele cinema.

Cinquenta Tons de Cinza é um “case” de sucesso absoluto do ponto vista comercial. Escrito por E. L. James, uma ex-produtora de TV que tinha o sonho de escrever um livro e quando decidiu fazê-lo, criou uma trilogia que fez enlouquecer milhões de leitores ao redor do mundo. O sucesso foi tão rápido e surpreendente que já superou a marca de 100 milhões de cópias vendidas, traduzido para 51 línguas diferentes, sem falar nas versões digitais disponibilizadas “ilegalmente” pela internet. Conseguem imaginar se uma versão cinematográfica deste fenômeno faria sucesso comercialmente?

Só que mesmo um projeto com grandes chances de sucesso financeiro precisa ter seus riscos minimizados. E é justamente nessa etapa do processo que nós, espectadores seremos diretamente afetados, pois são as decisões aqui tomadas que definirão se o filme será polêmico ou conservador, cheio de estrelas ou com atores/diretores emergentes, entre outras coisas. Após alguns problemas com a escolha do elenco, ficou definido (há quem diga que pela própria E.L. James) que Sam Taylor-Johnson seria a diretora e Kelly Marcel a roteirista. Quanto à dupla de protagonistas, Jamie Dornan seria Christian Grey, um jovem atraente e milionário com gosto sexual peculiar e Dakota Johnson seria Anastasia Steel, uma jovem estudante de literatura ainda virgem. Por obra do acaso, o destino dos dois se cruza e eles se envolvem em uma relação sensual e perigosa. A primeira versão do roteiro tinha muito mais cenas de sexo, como no livro, e era muito mais explícita que a versão final, dos cinemas. A ideia era fazer um filme realmente provocador, para maiores de 18 anos. Mas foi rejeitada pelo estúdio, pois não queriam perder uma enorme parcela do seu público, os adolescentes. Esta abordagem mais “conservadora” com certeza comprometeu o saldo final do filme antes mesmo de começar a ser filmado, mas por outro lado, como vimos, foi minimização de riscos.

Eu não vou mentir e dizer que gostei do filme. Mas também não vou ficar inventando defeitos e entrar em assuntos polêmicos que diminuam o trabalho realizado, como o de que o filme seja uma apologia à violência contra a mulher. Analisando a qualidade cinematográfica de Cinquenta Tons de Cinza, a estética empregada foi muito bem feita. As cores e a arte são cuidadosamente pensadas e a fotografia do duas vezes Indicado ao Oscar Seamus McGarvey conseguem equilibrar o “glamour” e elegância de todos os ambientes que Christian Grey frequenta com seu charme. Isso contrasta muito bem com seu “quarto vermelho”, que embora nada romântico, permanece elegante. Isso ajuda a compreendermos melhor o personagem, e o mesmo acontece com Anastasia, só que em seu universo totalmente oposto ao de Christian, muito menos glamouroso.

As atuações de ambos são aceitáveis, levando em conta a baixa qualidade dos diálogos e situações constrangedoras pelas quais os dois (especialmente Anastasia) teriam que passar. Vale lembrar que Jamie Dornan não teve todo o tempo adequado em relação aos outros para se preparar para o papel, pois fora chamado de “última hora” após a desistência de Charlie Hunnan. Quem leu o livro percebeu também que a versão do cinema tem elementos muito mais cômicos, o que trouxe um ar mais leve e fez o filme não tentar se levar tão a sério. Em outras palavras, a menos que seja um fã fervoroso ou um “chato de plantão”, é um filme que você pode assistir seja por curiosidade ou gosto pelo tema sem se decepcionar demais.

Os “defeitos” de Cinquenta Tons de Cinza, infelizmente, estão nos aspectos mais relevantes do filme. A escolha de um “quarteto principal” (diretora, roteirista, ator e atriz) menos experiente e pouco experimental foi óbvia para o que o estúdio pudesse manter o controle total do projeto sem grandes problemas. Mas esta pouca liberdade criativa resultou em uma visão muito fria da obra, não captaram a paixão e sensualidade que um filme de teor erótico deveria ter. Com o poderoso potencial de estímulo visual à disposição (os atores passam metade do filme nus e há muitas cenas de sexo), é estranho que o filme não consiga despertar a fantasia e a libido com a intensidade que o livro consegue.

Quando sentamos em uma poltrona de cinema e começamos a ver um filme, automaticamente estamos querendo ser enganados. É isso. Queremos alimentar nossa imaginação, desejamos ver histórias que acontecem com os outros, seja para nos identificar com a história/personagem ou apenas pelo prazer de observar e saciar nossa curiosidade. Um bom filme, do minuto inicial até subirem os créditos finais, é aquele que nos “desliga” do mundo real. É por isso que não achamos tão absurdo um super-herói mascarado salvando uma cidade que não existe. Ou que carros possam voar, animais falar, ou até que um peixe palhaço atravesse o oceano para salvar seu filho desaparecido.

Ao longo de suas 2 horas e 5 minutos, Cinquenta Tons de Cinza não consegue isso. Não faz parecer real o drama sofrido por Christian, que poderia ser muito mais profundo do que um simples diálogo com Anastasia na cama, onde ele conta seus traumas de infância, por exemplo. Pelo contrário, somos convidados a apenas observar do outro lado da tela e esperar para saber quem irá ceder primeiro, Christian ao amor ou Anastasia ao contrato.

E, para finalizar, desde o colégio aprendemos que uma história tem início, meio e fim. Por mais que este seja apenas o primeiro de uma trilogia, todo filme em si é uma unidade e necessita de conclusão – tomem como exemplo a saga Harry Potter ou O Senhor dos Anéis. Para ser mais rigoroso, cada cena deveria ter começo, meio e fim. Cinquenta Tons de Cinza força a barra ao simplesmente ignorar um terceiro ato, terminando de forma brusca e, me perdoem que não concorda, sem sentido. Um filme que grita mais erros do que acertos, mas que os fãs vão adorar e aguardar ansiosamente pelas sequências. O que consola é que poderia ter sido muito pior do que realmente é e tem potencial para melhorar, caso decidam captar melhor a essência da obra e ousar, para provocar mais.
Divulgaí

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