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Crítica: O Homem Duplicado

Crítica: O Homem Duplicado
O escritor português ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, José Saramago (1922-2010) é considerado um dos principais dramaturgos e romancistas de sua época, e teve uma de suas obras-primas adaptadas para o cinema em 2008, com o filme “Ensaio Sobre a Cegueira”, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus, 2002). As obras de Saramago são conhecidas por abordar de forma metafórica as deformidades da natureza do ser humano. Sua adaptação mais recente para o cinema é “O Homem Duplicado”, livro escrito em 2002, que foi transposto para a telona pelo roteirista Javier Gullón e pelo diretor indicado ao Oscar Dennis Villeneuve (Os Suspeitos, 2013).

O Homem Duplicado” conta a história de um abatido e melancólico professor de história chamado Adam (Jake Gyllenhaal), que aparenta levar uma vida sem propósito e desinteressado até mesmo em manter um relacionamento estável com sua namorada, Mary (Mélanie Laurent). Após assistir um filme indicado por um colega, Adam encontra um homem idêntico a ele (novamente Jake), tanto na aparência quanto na voz, que trabalha como ator em filmes menores. Intrigado a conhecer seu “reflexo”, Adam propõe um encontro entre os dois, e suas vidas se entrelaçam de forma em que os danos poderão ser irreparáveis.

O filme é recomendado ao público mais atento e paciente, pois tem uma premissa complicada e visualmente remete a clássicos surrealistas, como “Um Cão Andaluz” de 1929, onde algumas cenas têm sentidos metafóricos e abstratos, como a frase de efeito de Saramago sugere no início: “O caos é uma ordem por decifrar”. Entretanto, conforme os fatos vão acontecendo, fica mais fácil para o espectador entender os motivos que movem o protagonista, adentrando no labirinto em busca de respostas. Villeneuve merece créditos por conseguir manter a atenção do espectador sustentando o suspense e a tensão, tornando imprevisível o destino dos personagens e suas ações, mas o êxito do filme só é possível graças a performance de ouro do Indicado ao Oscar Gyllenhaal, que consegue interpretar dois homens de personalidades tão diferentes de forma muito eficaz, é possível distinguir qual personagem está em cena apenas por suas expressões e trejeitos, se consolidando como um dos grandes atores do momento devido a suas últimas atuações e revivendo a grande parceria de “Os Suspeitos” com o diretor.

Embora aberto a várias interpretações, é um filme para ser visto mais de uma vez. Este thriller aborda questões como a perda de identidade em uma sociedade onde se valoriza muito o individualismo, contrariando o futuro do mundo, cada vez mais globalizado e unificado (onde o coletivo deveria ser o mais importante). Ao ver a preocupação do protagonista em saber que existe alguém exatamente idêntico a ele, sendo inclusive confundido de forma banal pelas pessoas mais próximas (as próprias companheiras os confundem), são levantadas questões como o valor de nossas vidas e nossa relevância no contexto do universo. Se existe alguém absolutamente idêntico a você, será que o mundo sentiria sua falta caso um dos dois partisse? Nem o diretor (já ficando conhecido por seus finais abstratos, como em “Os Suspeitos”) se preocupa em responder tais questões e o final do filme é tão enigmático quanto o começo, mas “O Homem Duplicado” merece ser visto por se tratar de uma eventualidade incomum que instiga a refletir ou a assistir novamente para ver se algum pedaço do quebra-cabeça ficou para trás.
Divulgaí

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